A experiência por um fio

Em uma roda de pessoas onde a média de idade era de uns 65 anos, pude perceber fios de cabelos brancos voando pelo ambiente. Quando me dei conta, havia pelo menos três fios pairados em minha roupa. Apressei-me em tirá-los, mas hesitei. Percebi a sorte de ter ganhado tanta experiência pelo simples fato de estar ali.

Ezequiel Fernandes da C. Neto

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Caricatura

Identidade individual, local, regional, nacional, global. A lógica dessa gradação parece crescente; mas é decrescente. E decrescente no sentido de que, quanto mais se abrange o termo identidade, mais ela se perde. Desde o século XX, principalmente, quando modelos de produção industrial tenderam à produção em massa, agravou-se o processo de desidentidade não só dos produtos industriais que se tornavam padronizados e feitos em série, mas todo esse contexto tornou o conceito de identidade em mais um de seus manufaturados – homogêneo, hegemônico e euro-americano.

Há uma confusão entre os termos identidade coletiva e universal. Mas o termo universal, nesse caso, deprecia o coletivo. A questão reside no fato da universalização de uma identidade sobre as outras – universal, pois, mas egoísta. Já da coletiva, entende-se como um pensamento em favor do bem comum sem que haja subtração de peculiaridades. Infelizmente, o que mais se vê e se prega nos meios de comunicação de massa, por exemplo, é a “universalization” identitária. 

Toda essa conversa parece não levar a nada, ser algo distante e utópico. Mas, na verdade, é, também, assunto corriqueiro. Há pouco tempo atrás, morreu a cantora britânica Amy Winehouse. Podem falar o que quiserem de sua conduta, de sua música; isso é discutível. Mas aquela moça ali tinha uma identidade visual e musicalmente própria. É mais óbvio do que parece. Identidade é isso: ser autêntico. Enquanto milhares de músicas são produzidas por aí que não dá para saber sequer o país de origem, se “Rehab” tocar, logo vem à mente aquele tufo de cabelos e meio quilo de maquiagem nos olhos perambulantes e bêbados.

Isso não é apologia à música estrangeira e, muito menos, às drogas. Mas à importância de se ter uma identidade própria. Este termo até parece redundante, mas nesse estado de inculturação, e porque não dizer de aculturação que o mundo globalizado caminha, é necessário enfatizar que identidade tem que ser própria. E isso é só questão de querermos manter aquilo que nos é característico. A grama do vizinho nem sempre é mais verde. O fato é que o vizinho faz mais propaganda para alienar quem está ao lado e não perceber que ele quer dominar seu jardim.

Em jeito de conclusão, tratemos esse assunto de um jeito mais filosófico, digamos assim. Ter identidade própria é querer ser, cada dia mais, bem caricato. Caricatura é quando exageramos as características que nos faz únicos. De forma bem humorada ou fazendo uma autocrítica – que segundo Tomás Magalhães é um grande índice de construção da identidade – o que importa é sermos exageradamente nós mesmos. Se a arte imita a vida, a caricatura é, sem dúvida, a maior expressão artística de nossa identidade.

Ezequiel Fernandes da C. Neto


S E R O L A V

Tanta gente inconformada com a sociedade atual devido ao caminho que ela trilha rumo à inversão de valores… Na verdade, já não há mais o processo de inversão; os valores já são outros – diga-se de passagem, muito baratos. Prego, pois, em prol da inversão de valores! Talvez, assim, retornaremos, ou, de fato, iniciaremos um processo de mudança para valores justos, cultos e humanos. Como fazer isso? Essa não é a pergunta certa, mas sim: Estamos dispostos a pagar quanto por isso?

Ezequiel Fernandes da C. Neto


DOU EU A DOR

ai


Não tem título

Não tem primeiro verso
Então não tem segundo
Que dirá um terceiro!
O quarto não rima com o segundo

Quiçá uma segunda estrofe?
Que complementaria a primeira
Mas nem primeira estrofe eu tenho…
Que poema de besteira!

É a poesia da negação
Como a casa muito engraçada
Que não tinha teto,
Não tenho rimas alter-nadas

É como dar um fim
Pra algo que eu nem começo
É como encerrar um poema que
Não tem primeiro verso


E agora, mané?

Na boca da urna 
Se voto, volto a velha casa de sempre
Se não, a velha casa ainda estará lá
Devo votar para tentar demoli-la
Ou abraçar Pilatos?

Parece que tanto faz

Vou ter que cortar um dos fios:
Branco, laranja ou verde
Qual deles demole a casa? 
Que triste ilusão!
Posso fazê-lo de olhos fechados,
Mas não dá outra!
Vo(l)tarei à velha casa de sempre
Ezequiel Fernandes da C. Neto

Oxe

Há quem diga que sou a cara de mainha

Pra outros sou papai escritinho

Muita gente chega à conclusão que não pareço com ninguém

Já num bocado de canto que vou,

Sou primo de todo mundo

Certo taxista jurou de pés juntos que eu era sobrinho dele

Com quem pareço, afinal?

Saí de onde, meu Deus?

Do engenho na Parahyba ou da oca do Aruaque?

Sou filho dum jesuíta ou de índia com branco?

Como é que é… De todos eles?

Que baque!

Sou brasileiro, cumpadre

Neto de Maria, filho de vaqueiro

Sou brasileiro, cumpadre

Nasci de muita gente

Sou filho do Brasil inteiro

 

Ezequiel Fernandes da C. Neto